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ENTREVISTA.

Entrevista a Amábile Bezinelli

“O sucesso escolar não é só bom desempenho académico, é também, mas é igualmente desenvolvimento pessoal, é desenvolvimento social, é desenvolvimento comunitário. Existem muitas formas de se ver o que é o sucesso escolar. Torna-se é mais fácil medir o sucesso académico.”

Amábile Bezinelli nasceu em 1997 e cresceu num município brasileiro do estado de São Paulo. Foi nas atividades extra-curriculares que descobriu um lugar de pertença, vínculo que não tinha conseguido criar em nenhuma das escolas por onde passou. Aos 7 anos já estudava música. Aos 12 encontrou e encontrou-se no teatro. Dois anos depois, já fazia teatro profissional. Foi, por isso, fácil escolher a área de estudo na Universidade. No entanto, precisamente devido à sua vivência desenraizada da escola, com a qual não se identificava, interessou-se pelo trabalho do teatro dentro da escola, pela convicção da capacidade de transformação que o teatro pode ter na vida dos alunos. Descreve-se como uma filha de projetos sociais e é neles que se sente plena. Foi a artista residente, pelo Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar (PNPSE), no AE Bordalo Pinheiro, nas Caldas da Rainha, durante este ano letivo.

PNA. Como chegas a Portugal?

AB. Por causa da minha pesquisa. Eu estudei, no Brasil, depois da minha licenciatura em teatro, formação de professores. E queria perceber se essa formação incluísse o teatro, de que forma serviria para criar laços entre professor e aluno. Por sua vez, dentro dessa minha pesquisa, havia o estudo da parte histórica sobre a educação no Brasil, em que eu tentava entender quais eram as tendências endógenas e quais eram as herdadas pela colonização. Portanto, foi inevitável chegar a Portugal. Ganhei uma bolsa de estudos para aprofundar o conhecimento sobre o sistema de ensino português e assim conseguir perceber que ideais pedagógicos portugueses prevalecem no sistema de ensino brasileiro.

PNA. Para aonde te levou essa bolsa de estudos?

AB. Levou-me até à Universidade de Coimbra, onde ainda cursei um semestre em Ciências da Educação. Depois era para ter voltado, mas, entretanto, chegou a pandemia. E acabei por ficar. Concluí a defesa online da minha monografia aqui, quando surgiu um convite para trabalhar na minha área em Portugal. A decisão de ficar foi fácil, até porque eu não queria viver um Brasil com Bolsonaro como Presidente.

PNA. No estudo sobre os sistemas de ensino português e brasileiro, o que descobriste?

AB. Eu queria ter muitas diferenças para identificar e não estou a falar de estrutura. A nível do ideal pedagógico, infelizmente, há poucas diferenças, o que mostra que nós ainda temos uma herança colonizadora muito forte no Brasil. Lá também temos os castigos, os quadros de mérito, os professores num sítio e os alunos noutro lugar. Toda a lógica pedagógica, que é importada de Portugal, ficou no Brasil até hoje, talvez acentuando ainda mais o que há de negativo nessa lógica. Isto porque o conceito de educar para domesticar é muito maior no Brasil, pois é no contexto da colonização que se estabelece.

PNA. Profissionalmente, o que fizeste em Portugal?

AB. Logo que cheguei a Portugal, conheci o GEFAC, que é o Grupo de Etnografia e Folclore da Universidade de Coimbra. Como o teatro que eu estudo é um teatro popular, muito focado numa abordagem de teatro comunitário, quis entender como era a cultura popular portuguesa. Então, durante um ano, estive a dirigir um espetáculo do GEFAC. Depois, também trabalhei para uma associação, o CEIFAC (Centro Integrado de Apoio Familiar de Coimbra), onde coordenei um projeto que eles estavam implementando, que, basicamente, era destinado a pessoas em situação de vulnerabilidade social. Ao mesmo tempo, mas enquanto atriz, fiz parte da Bonifrates, que é uma Cooperativa de Coimbra e da Tarrafo, uma Associação Cultural.

PNA. Para aonde te levou essa bolsa de estudos?

AB. Levou-me até à Universidade de Coimbra, onde ainda cursei um semestre em Ciências da Educação. Depois era para ter voltado, mas, entretanto, chegou a pandemia. E acabei por ficar. Concluí a defesa online da minha monografia aqui, quando surgiu um convite para trabalhar na minha área em Portugal. A decisão de ficar foi fácil, até porque eu não queria viver um Brasil com Bolsonaro como Presidente.

PNA. No estudo sobre os sistemas de ensino português e brasileiro, o que descobriste?

AB. Eu queria ter muitas diferenças para identificar e não estou a falar de estrutura. A nível do ideal pedagógico, infelizmente, há poucas diferenças, o que mostra que nós ainda temos uma herança colonizadora muito forte no Brasil. Lá também temos os castigos, os quadros de mérito, os professores num sítio e os alunos noutro lugar. Toda a lógica pedagógica, que é importada de Portugal, ficou no Brasil até hoje, talvez acentuando ainda mais o que há de negativo nessa lógica. Isto porque o conceito de educar para domesticar é muito maior no Brasil, pois é no contexto da colonização que se estabelece.

PNA. Profissionalmente, o que fizeste em Portugal?

AB. Logo que cheguei a Portugal, conheci o GEFAC, que é o Grupo de Etnografia e Folclore da Universidade de Coimbra. Como o teatro que eu estudo é um teatro popular, muito focado numa abordagem de teatro comunitário, quis entender como era a cultura popular portuguesa. Então, durante um ano, estive a dirigir um espetáculo do GEFAC. Depois, também trabalhei para uma associação, o CEIFAC (Centro Integrado de Apoio Familiar de Coimbra), onde coordenei um projeto que eles estavam implementando, que, basicamente, era destinado a pessoas em situação de vulnerabilidade social. Ao mesmo tempo, mas enquanto atriz, fiz parte da Bonifrates, que é uma Cooperativa de Coimbra e da Tarrafo, uma Associação Cultural.

PNA. O que te seduz mais no teatro popular?

AB. Tem muito a ver com o sítio de onde eu vim. Tem a ver com a minha história. Eu sou filha de um projeto social e vi a potência transformadora do teatro na minha vida e na vida das pessoas que participavam comigo nos projetos que eu integrei. Me dá muito prazer ser atriz em grandes produções, me dá muito prazer fazer teatro profissional, mas tem qualquer coisa na educação que me preenche no sentido global e completo da existência.

PNA. Como chegas, então, à residência artística?

AB. Foi por acaso. Candidatei-me online para uma vaga no AE Bordalo Pinheiro, nas Caldas da Rainha, através do PNPSE, que eu não conhecia. Entretanto, depois de conhecer tanto o PNPSE como o PNA, identifiquei-me de imediato com os dois. Ou seja, se cheguei por acaso, não é por acaso que faço o trabalho que faço. Foi mesmo por compactuar com tudo o que ambos trazem como princípios no desenvolvimento pessoal, social, comunitário, artístico, cívico e político também.

PNA. Existe a figura de artista residente no sistema de ensino brasileiro?

AB. Um plano da dimensão do PNA ou mesmo do PNPSE, no Brasil, é impensável hoje em dia. Ter um técnico especializado que vá para a escola só para desenvolver uma atividade artística não existe. Essa figura que eu faço em Portugal, infelizmente, não existe no Brasil.

PNA. Porquê?

AB. Aqui há uma estrutura muito bem definida. E eu posso estar preocupada só em fazer o meu trabalho. Uma das coisas maravilhosas do PNPSE ou do PNA é pensar num técnico especializado que tem apenas um função.

PNA. Quando chegas ao AE Bordalo Pinheiro, encontras uma equipa do PNA já formada. Como foi trabalhar com essa equipa?

AB. Foi tudo muito intuitivo. Não há modelos, o que é bom, porque nos permitiu construirmos tudo juntos. A não existência de modelos faz com que haja uma adaptação total do projeto ao território, de respeito pelo território. Se eu fizesse uma residência artística em Coimbra seria completamente diferente. Assim, primeiro, fui conhecendo o contexto escolar e a comunidade. Fui entendendo quais eram os professores que estariam mais abertos para parcerias, os miúdos mais interessados em atividades relacionadas com o teatro. E fui percebendo qual era o melhor projeto para aquela escola. Eu não consigo trabalhar sem conhecer o território, porque como o teatro que eu faço é comunitário, não faz sentido nenhum trazer modelos pré-concebidos.

PNA. Depois desse estudo sobre o território, qual foi o passo seguinte?

AB. Havia, em teoria, um clube de teatro no Agrupamento, mas que não estava funcionando, por isso abri um novo. Todavia, percebi que os miúdos estavam muito mais curiosos com a figura de artista residente do que propriamente com o teatro. Até porque o teatro traz muito o preconceito de se achar que não se tem jeito para esta área artística, como se esse “jeito” nascesse connosco.

PNA. A verdade é que os alunos “sem jeito” para o teatro apareceram.

AB. Os miúdos são tão fáceis. Eu nem tive de os conquistar. Eles têm interesse. Eles, às vezes, têm é entraves que nós colocamos em cima deles. A partir do momento em que se abre um espaço onde se propõe um lugar em que você pode ser você mesmo, em que você tem espaço para descobrir quem você quem ser, em que você pode criar livremente, os miúdos aparecem. Quando abri a Sala de Processos, os alunos chegaram.

PNA. Fala-nos da Sala de Processos.

AB. A Sala de Processos foi uma desculpa para chegar ao teatro, apesar de a metodologia ser exatamente a mesma do meu trabalho no grupo de teatro. A Sala de Processos foi dividida em duas vertentes, uma destinada aos promotores da cultura, que não se relacionam diretamente com a linguagem de teatro, e a outra destinada mesmo ao grupo de teatro.

PNA. Foi um projeto mais teu ou de uma equipa?

AB. Não existe trabalho sozinho. É um projeto meu na medida em que o delineei, escrevi os conceitos e fiz a proposta. Mas a nível de reflexão, isto é, o que é que me levou até à criação da Sala, tudo foi conversado, tudo foi altamente participado tanto pelos professores como pelos miúdos. Eu fui apenas a figura que reuniu tudo o que eu escutei, mas não mais do que isso.

PNA. A Sala de Processos também nasce um pouco da falta que os alunos sentiam para terem um espaço para estar. Quando foram auscultados os alunos, eles disseram que tinham uma outra sala, contudo só podiam entrar nela com autorização e sempre acompanhados por professores. Queixavam-se de não terem um espaço para eles. Ouvir os alunos é fundamental?

AB. Sim, é fundamental. Eu abri inscrições para promotores da cultura e para o grupo de teatro. Os promotores da cultura tinham de pensar atividades culturais, de qualquer âmbito, para a escola e o grupo de teatro pensava em cenas para trabalharem no palco. Ou seja, a minha provocação é sempre comunitária, a reflexão é sempre feita em cima do contexto escolar. Eu não aceitava propostas que não fossem enquadrados na comunidade, fosse comunidade mais alargada, as Caldas da Rainha, ou mais restrita, a escolar.

PNA. O que há na Sala de Processos que não existe numa sala de aula tradicional?

AB. A Sala de Processos dá aos miúdos oportunidade de eles elegerem o que querem fazer, e isso uma sala de aula não tem. Começa por aí. E isso é um espaço não formal. Isso é um espaço de liberdade que a escola, por norma, não permite: “Queremos criar. O que queremos criar?”. É uma mistura de ateliê com sala de estar e salão de jogos. Tem espaço para estudar em sofás confortáveis, tem materiais à disposição, tem mesas de trabalho, é possível ouvir música. A Sala de Processos da ES Rafael Bordalo Pinheiro é uma zona de passagem, portanto não é possível sequer ser totalmente supervisionada. É um espaço aberto. Tem canetas, lápis, tintas e vários materiais à disposição dos miúdos. Nunca houve qualquer problema com a Sala de Processos. Antes pelo contrário. Está a ser muito bem mantida, muito bem cuidada pelos miúdos.

PNA. Também trabalhaste com os professores?

AB. Sim. Todos temos muita sorte com os professores que estão naquela escola. Eu trabalhei muito em parceria com os professores. Só no grupo de teatro é que estive mais sozinha. Por exemplo, no Curso Profissional de Técnico de Ação Educativa, eu trabalhei com uma professora na sala de aula. Ali criou-se um espaço muito enriquecedor, porque houve uma troca de papéis de professora para artista. Ao mesmo tempo, a minha presença na sala de aula tinha quase um caráter de formação de professores, que inclusive era o que eu tinha vindo pesquisar para Portugal, com o objetivo de entender como seria um professor que passa pela metodologia de teatro antes de entrar na sala de aula.

PNA. Há uma abertura maior para essas metodologias diferentes dos professores das artes do que dos restantes professores?

AB. Não sei. A escola encaminhou-me para o grupo das artes, mas apareceram professores de outras áreas. Eu não sei se há, depende. É fácil a minha associação aos professores de artes, porque sou artista. É uma associação fácil, mas não deveria ser. As artes precisam de estar em todo o lado.

PNA. O sucesso escolar foi visível?

AB. O sucesso escolar não é só bom desempenho académico, é também, mas é igualmente desenvolvimento pessoal, é desenvolvimento social, é desenvolvimento comunitário. Existem muitas formas de se ver o que é o sucesso escolar. Torna-se é mais fácil medir o sucesso académico. É muito bonito ver como as artes ajudam a construir um lugar de identidade, que depois traz um lugar de pertença. Eu sei quem eu sou, eu consigo entender melhor quem eu sou e eu me sinto à vontade para ser quem eu sou, portanto esse espaço que me acolhe é um espaço que eu também quero transformar. Logo, o envolvimento com a escola é visível.

PNA. Ou seja, o feedback dos alunos foi muito positivo?

AB. Os miúdos diziam que a quarta-feira passou a ser o dia preferido para estarem na escola. Quando as aulas acabaram, os miúdos continuavam a frequentar a Sala de Processos porque queriam. Os miúdos diziam muito que não se sentiam “eu mesmo” em lado nenhum e agora tinham encontrado ali o seu lugar. Se isso não é desenvolvimento pessoal, social e comunitário, eu não sei o que é. Se não é contribuir para o desenvolvimento das competências inscritas no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (PASEO), eu não sei o que é. A verdade é que os miúdos correspondem muito, sobretudo nos aspetos mais pessoais e sociais. A promoção do sucesso tem muito a ver com promover a pertença à escola. Eu fui a miúda que não pertencia à escola e me sentia completamente desenraizada. Se eu tivesse uma pessoa fazendo o trabalho que se faz através do PNA na minha escola, eu seria muito mais feliz ali. E isso também é sucesso escolar.

PNA. Foi um trabalho muito recompensador?

AB. Muito. Foi um trabalho que eu gostei imenso de fazer. Foi um ano inteiro em que não houve um dia em que eu não quisesse ter ido para a escola e acho que os miúdos também queriam estar comigo ali. É um trabalho mesmo muito recompensador. É no que eu acredito enquanto futuro da educação, das artes, da cultura, do ser humano, do que é ser pessoa no mundo. Todo o processo foi muito bom.

PNA. A escola também tem capacidade de transformar o artista?

AB. Eu aprendi muito. E sim, a escola consegue mudar a prática artística do artista. O envolvimento na educação leva a uma outra forma de pensar e fazer teatro. Não é só o teatro que ajuda a educação. A educação também ajuda o teatro. Ajuda muito a repensar a nossa forma de estar em cena, a nossa forma de nos relacionarmos nos ambientes teatrais. Levo muita coisa da escola, um olhar, uma forma de olhar para o outro, que, às vezes, a gente esquece no âmbito profissional do teatro e que eu gostava de ter em todos os espaços da minha vida, ou seja, conseguir olhar para os meus colegas de profissão com o carinho que os alunos olham para o artista. A escola é, sem dúvida, tranformadora.

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