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ENTREVISTA
Entrevista a Paulo Lima
“O PNA é muito unificador, integra as pessoas todas, os projetos todos. No entanto, é necessário tempo para que as medidas e a forma de trabalhar do PNA
se enraízem. As transformações precisam sempre de tempo. Falta um compromisso global político na forma como se olha para a Educação.
Não há uma visão conjunta e de continuidade, o que dá a ideia de que quem chega quer deixar a sua marca, independentemente dos bons
resultados de algumas das medidas tomadas.”
Paulo Lima mudou-se com a família para Maputo há seis meses, atrás da realização de um sonho: voltar a encontrar-se com África. Nasceu em Angola,
mais concretamente na Barraca, onde também cresceu, mas em 1974 a família regressou a Portugal. Conta, emocionado, que o pai viveu sempre na
esperança de um dia voltar a Angola, algo que acabou por nunca acontecer, e é por isso que o bilhete de avião desse regresso continua na família.
Assim que conseguiu juntar dinheiro com os primeiros ordenados, em 1999, viajou até àquele lugar de infância, à casa dos pais. Paulo Lima é professor
de Português e TIC e foi, durante dois anos letivos, Coordenador Intermunicipal do Plano Nacional das Artes. Entrevistamo-lo, sem sabermos,
no dia do seu aniversário.
PNA
Onde fizeste o ensino primário?
PL.
Fiz todo o ensino primário em Gondarém, uma freguesia de Vila Nova de Cerveira, e fiquei profundamente marcado pela minha professora,
Rosa Maria, porque nos envolvia e motivava de tal forma, que era uma alegria estar nas aulas. Nunca a vi com uma régua na mão.
Já naquela altura, ela valorizava muito as artes. Havia sempre tintas, recortes, concursos, criatividade. O ensino era para ela
uma verdadeira missão. Hoje sei que é por causa dela que sou professor.
PNA
E a seguir?
PL.
Quando eu andava no quinto ano, conheci um jovem que estava no seminário Franciscano e fiquei completamente fascinado pela forma de ser e de estar dele. Ele era tão inspirador, que eu também queria ser assim e comecei a pensar seriamente em ir para o seminário. Falei com os meus pais, que fizeram um esforço enorme para tornar possível a minha ida para Braga, no final do meu sexto ano.
PNA
Como foi mudar para o seminário sendo tão novo?
PL.
A adaptação foi dificílima, chorei muito. As primeiras noites foram terríveis. De repente, estava a viver, longe da família, que só via durante as férias escolares, com mais de 300 jovens.
PNA
O método de ensino era muito diferente?
PL.
Não só o método de ensino como a exigência. Era preciso saber tudo na ponta da língua. Para não ficar para trás, passei muitas noites a estudar na casa de banho, o único sítio onde havia uma luz de presença noturna. Outra estratégia foi comprar uma pequena lanterna e, na cama, tapar-me com um cobertor, como se fosse uma tenda. Escondia os livros debaixo da camisola, levava-os para a camarata e passava as noites a estudar. No meu 9.º ano, felizmente, encontrei alguém que foi ao seminário falar sobre métodos de estudo e, a partir daí, tudo mudou.
PNA
Em que consistiam esses métodos de estudo?
PL.
Primeiro, tinha de haver uma preparação contínua do trabalho, ou seja, não deixar que o trabalho acumulasse. Segundo, aprendi a criar mapas mentais para a organização e clarificação de ideias sobre os vários assuntos. E terceiro, depois de ter baseado o meu estudo apenas a decorar as matérias e de me ter esquecido de tudo num teste, percebi que não é possível conhecimento sem compreensão.
PNA
Acabas, mais tarde, por desistir do seminário.
PL.
Sim, fiquei no seminário só até ao meu primeiro ano de Teologia. No 12.º ano, comecei a questionar a minha vocação para ser padre e, ao longo desse primeiro ano, pensei mesmo muito sobre o assunto. Não são decisões fáceis, precisam de ser muito ponderadas, de reflexões profundas. Falo, então, com os meus pais e depois com o Reitor, o Cónego Fernandes.
PNA
O que mais te marcou no seminário?
PL.
As pessoas que encontrei, nomeadamente alguns padres e colegas, de um humanismo enormíssimo. Ainda hoje mantenho uma grande relação de amizade com muitos deles.
PNA
Continuas os estudos em Braga?
PL.
Continuo a estudar em Braga na área das Humanidades, na Universidade Católica, na Faculdade de Filosofia. Nesse ano, trabalhei no jornal Diário do Minho para ganhar algum dinheiro e poder ajudar a pagar o meu alojamento e depois consegui arranjar emprego, como tutor, na Oficina de São José, uma instituição que recebia miúdos quer enviados pela Segurança Social, com traumas profundos, quer por pais com situações económicas privilegiadas que, por exemplo, viviam no estrangeiro e queriam que os filhos estudassem em Braga. Foram tempos extremamente difíceis, de total dedicação, inclusive aos fins de semana, mas de uma grande aprendizagem.
PNA
Como foi a entrada na vida profissional?
PL.
Quando termino o curso, fico a trabalhar na escola, que hoje pertence ao Agrupamento do qual faço parte. No ano seguinte, efetivo em Albufeira e logo depois em Valença do Minho, mas mantive-me sempre no atual Agrupamento de Escolas de Monte da Ola, em Darque, uma freguesia de Viana do Castelo, onde acabo por fazer parte do então designado Conselho Diretivo. É a essa escola que estou ligado há mais de 30 anos.
PNA
Atualmente, é quase impossível um professor ficar durante 30 anos na mesma escola.
PL.
Sim, hoje em dia, é muito raro isso acontecer. Quando se está durante tanto tempo numa escola, isso permite um conhecimento profundo da comunidade, permite um maior envolvimento com o projeto educativo. A precariedade que atingiu a profissão nas últimas décadas tende, infelizmente, a matar tudo isto.
PNA
O que falta hoje na educação?
PL.
Falta um compromisso global político na forma como se olha para a educação. Não há uma visão conjunta e de continuidade, o que dá a ideia de que quem chega quer deixar a sua marca, independentemente dos bons resultados de algumas das medidas tomadas. Se hoje temos jovens com trabalhos notáveis desenvolvidos nas ciências, nas artes, etc., deve-se ao facto de, no passado, em alguns momentos, as políticas educativas terem desencadeado verdadeiros processos de transformação nos alunos. E para isso é preciso envolver os professores.
PNA
Envolver os professores torna-se crucial?
PL.
Sem dúvida. E a verdade é que, hoje em dia, os professores mostram-se muito mais céticos em relação a propostas potencialmente transformadoras, uma vez que estão já à espera que essas propostas políticas durem pouco tempo. Estas mudanças constantes trazem muito desgaste às escolas.
PNA
Como é que chegas a Coordenador Intermunicipal do Plano Nacional das Artes?
PL.
Quando assumi a coordenação de escola, juntamente com uma equipa fantástica de professores, técnicos e assistentes operacionais, desenvolvemos vários projetos, que visavam quebrar o estigma que caía sobre aquela escola e a comunidade. A determinada altura, decidimos abrir a escola à comunidade, incluí-la, trabalhar com ela, com os Encarregados de Educação, parceiros, todos. E isto mudou tudo. Esta forma de trabalhar e o meu compromisso com esse tipo de trabalho trouxeram-me até ao Plano. Uns meses antes de isto acontecer, conheci o Paulo Pires do Vale numa apresentação do PNA que ele fez em Viana do Castelo.
PNA
Como foi o teu início no Plano?
PL.
O processo inicial foi de muita reflexão, porque ser Coordenador Intermunicipal de territórios que eu não conhecia, obrigou-me a pensar muito sobre a forma de chegar a todos: escolas, autarquias, equipamentos culturais, etc. O desafio que me tinham dado era de uma responsabilidade e de uma exigência enormes, mas, quando conheço a equipa do Plano, encontro uma equipa sempre, a qualquer hora, disposta a ajudar, a ouvir, a elogiar, a encorajar. A atenção que esta equipa dedica ao outro é mesmo muito bonita.
PNA
Qual é o trabalho de um Coordenador Intermunicipal?
PL.
Primeiro, um Coordenador Intermunicipal tem de conhecer e respeitar as escolas com que trabalha, percebê-las. As escolas têm dinâmicas muito diferentes, que resultam do território onde estão inseridas, da relação com a comunidade, do seu projeto educativo, da sua maturidade, etc. Depois, como entramos nas escolas com um olhar externo, torna-se mais fácil levá-las a refletir, levá-las a olhar para aspetos que, por habituação, não eram vistos.
PNA
É um trabalho muito enriquecedor?
PL.
Sem dúvida. É um trabalho todo desenhado não para pessoas, mas com as pessoas. Como diz o nosso Comissário, “nós somos pontífices”, uma vez que fazemos pontes entre todos, sempre com o objetivo, entre outros, de aproximar as artes, as culturas e os patrimónios dos cidadãos mais jovens. Mas quero voltar a sublinhar que todo o trabalho que fiz jamais seria possível sem a equipa que encontrei. Fiquei profundamente marcado, pessoal e profissionalmente, por esta equipa.
PNA
O PNA tem um caráter transformador nas escolas, nos alunos, nos professores?
PL.
Acho que o processo é lento, daí o PNA ter sido programado para durar 10 anos. O PNA é muito unificador, integra as pessoas todas, os projetos todos. No entanto, é necessário tempo para que as medidas e a forma de trabalhar do PNA se enraízem. As transformações precisam sempre de tempo. Mas, sim, notam-se já transformações nas dinâmicas, nas formas de pensar e de trabalhar. Veem-se mudanças nos projetos educativos alicerçados nos projetos culturais que as escolas construíram. Para isso é fundamental o envolvimento das direções.
PNA
Em agosto do ano passado regressas a África.
PL.
Não vinha a África desde 1999 e tinha mesmo muita vontade de regressar. Voltar a Angola foi a primeira ideia, contudo, por questões de segurança e de saúde, visto trazer a família, procurei alternativas. Surgiu, assim, a Escola Portuguesa de Moçambique, em Maputo, que é uma escola que faz parte da rede de escolas do Plano Nacional das Artes. Quando a escola, no ano letivo de 21/22, venceu o concurso “Vamos Fazer um Plano”, resultante de uma parceria do PNA com o jornal PÚBLICO, eu pude conhecê-la melhor e houve, de imediato, uma identificação com a mesma.
PNA
Foi uma decisão fácil?
PL.
Foi muito difícil ter de deixar o trabalho no PNA, fiquei indeciso, mas vir para África era um sonho, enquanto projeto individual e profissional, e não podia mesmo deixar fugir esta oportunidade, até porque poderia não voltar a ter outra. Quando chego a Maputo, encontro logo dois placares publicitários: “Africanicidade é transformar desafios em oportunidades.”, “Se tens um sonho, faz acontecer.”. Era o destino.
PNA
Como foram estes primeiros meses?
PL.
Pessoalmente, foram de adaptação a uma nova realidade, que é muito diferente da realidade portuguesa. Profissionalmente, encontrei uma escola com uma direção que oferece todas as condições de trabalho aos seus professores e com uma forma de trabalhar muito alinhada com as premissas e valores do PNA. Fui muito bem recebido por todos, por isso a integração foi muito fácil. Há uma preocupação geral para que todos se sintam bem.
PNA
Como é a Escola Portuguesa de Maputo?
PL.
É uma escola muito dinâmica, sempre disposta a abraçar novos projetos. Preocupa-se muito em levar os alunos a conhecer a sua comunidade, para que estes criem uma relação com a mesma, com os espaços artísticos e culturais que aí existem. Há parcerias muito ativas com diferentes instituições e organizações. No entanto, nem sempre é fácil, neste contexto, tirar os alunos da escola. Por vezes, conseguir um simples autocarro torna-se uma tarefa impossível. Só que estas dificuldades potenciam a criatividade, na procura de alternativas.
PNA
Como caracterizas os alunos?
PL.
Os alunos são muito heterogéneos, por se tratar de uma escola muito multicultural, o que é muito enriquecedor. Há um sentimento de família, de proximidade entre todos.
PNA
O que é o melhor de Maputo?
PL.
As pessoas. Quando se anda na rua, todos se cumprimentam. Há sempre sorrisos, simpatia. A criatividade que estas pessoas têm para responder a tantos problemas, transformando-os em oportunidades, em soluções, é, de facto, muito inspiradora.
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