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ENTREVISTA
Maria Emília Brederode Santos
Maria Emília Brederode Santos nasceu em Lisboa, em 1942. Cresceu numa família onde “a politização era quase como uma segunda pele”. A inclinação para as Letras levou-a até ao Direito, área que viria a abandonar por não se identificar com o tipo de ensino. É nas Ciências da Educação que descobre o seu lugar, de onde não mais saiu e a que dedica uma vida repleta de experiências, reflexões e ensinamentos. Recebe, no próximo dia 25 de janeiro, o Doutoramento Honoris Causa pelo ISPA (Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida).
PNA.O que mais a marcou, da sua escola, enquanto aluna?
MEBS. Em 1952, fui estudar para o Liceu Francês, que inaugurou precisamente nesse ano. O diretor da secção portuguesa que então existia era o Dr. Ercílio Cardoso, um senhor da oposição, o que me permitiu ter professores, particularmente interessantes, como o Dr. Rui Grácio, que tinham sido impedidos de lecionar no ensino oficial por motivos políticos. Também aí pude ter contacto com atividades extracurriculares, coordenadas por artistas malvistos pelas autoridades da altura. Era uma escola diferente.
PNA. O que lhe deixaram esses professores e esses artistas?
MEBS. Desenvolveram-me o pensamento crítico e uma visão mais aberta do mundo.
PNA. Entretanto, através de um bolsa de estudos, num programa de intercâmbio de estudantes, foi estudar para a Califórnia durante um ano. Como foi essa experiência?
MEBS. Foi uma experiência importantíssima que marcou a minha vida. Estar sozinha aos 16 anos, num esforço de adaptação a outra família, sociedade, a outro país, obrigou-me a pensar muito. Fez-me refletir sobre educação, porque a escola era muito diferente da escola portuguesa. Era, já naquela altura, uma escola para todos, heterogénea, repleta de diversidade cultural. Além disso, o currículo, de base humanista, tinha disciplinas de opção e oferecia também áreas facultativas onde se aprendia imenso, como teatro, condução, escrita criativa, dactilografia, preenchimento de impostos, educação sexual, educação social, orientação profissional, entre outras. Dava-se muita importância ao saber fazer, mas também à cidadania ativa e à ligação ao real. Regressei a Portugal capaz de usufruir, de forma muito mais consciente, do que a escola me proporcionava.
PNA. Passa da Faculdade de Direito para a Faculdade de Letras em plena crise estudantil de 1962. De que forma viveu esse tempo?
MEBS. Ainda na Faculdade de Direito, mas longe das salas de aula, onde o ensino era muito conservador e as hierarquias eram extremamente vincadas, encontrei a Associação Académica, dirigida pelos próprios estudantes. Foi aí que me senti em casa, porque, tal como eu, encontrei pessoas que queriam pensar e discutir o mundo e que participavam nas atividades artísticas que a Associação oferecia. Já na Faculdade de Letras, vivi as manifestações estudantis de forma muito intensa e emotiva, até porque houve uma adesão enorme dos alunos daquela Faculdade. Foi também aí que conheci o José Medeiros Ferreira, que era vice-presidente da Associação de Estudantes, com quem mais tarde viria a namorar e depois a casar. Após a defesa da minha tese de licenciatura “O Mito do Cowboy na Cultura Americana”, fui ter com ele a Genebra, para onde tinha saído clandestinamente.
PNA. Como foi essa passagem pela Suíça?
MEBS. Quando fui ter com o José ao exílio, já me tinha sido atribuída uma bolsa de investigação pela Fundação Calouste Gulbenkian, o que me permitiu ir estudar para o Instituto de Psicologia e Ciências da Educação, uma instituição então muito prestigiada nesta área.
PNA. Fale-nos um pouco sobre a sua carreira profissional.
MEBS. Paralelamente ao trabalho em instituições educativas ou de formação de professores, fui sempre trabalhando em meios de comunicação social. Logo após o 25 de abril, fui para a Instituto de Tecnologia Educativa fazer formação de professores em Ensino a Distância. Quando este trabalho acabou, eu e um colega propusemos à presidente fazer um programa de televisão semanal sobre educação. Na verdade, queríamos que, de forma eficaz e célere, a população pudesse entender as mudanças na educação, para assim as poder apoiar e nelas participar ativamente. O programa, que durou cerca de um ano, foi o Falar Educação.
PNA. Mas, no meio de tudo isto, regressa aos Estados Unidos.
MEBS. Sim, volto para fazer um mestrado. O Ministério de Educação português tinha feito um acordo com a Universidade de Boston, uma vez que desenhara um projeto para criar instituições de formação de educadores de infância e de professores dos 1.º e 2.º ciclos, tudo numa única escola. Para isso precisava de um corpo docente capacitado para formar professores dessas novas instituições, que viriam a ser as Escolas Superiores de Educação. Aprendi muito não só com os professores da Universidade de Boston mas também na Universidade de Harvard, para onde ia com um colega participar num seminário de Kohlberg, que trabalhava o desenvolvimento do raciocínio moral, partindo da base de Piaget, que eu já tinha estudado em Genebra. O desenvolvimento do raciocínio moral parecia-me muito interessante na perspetiva da educação para a cidadania.
PNA. De novo em Portugal, o que acontece?
MEBS. Ao contrário do que estava inicialmente previsto, não fui para a Escola Superior de Educação de Lisboa, porque aceitei o convite da Ana Maria Bettencourt para integrar a Comissão Instaladora da Escola Superior de Educação de Setúbal. No entanto, quando a Ana Maria Bettencourt se demitiu, eu, por solidariedade, demiti-me também. Foi então que o Fernando Lopes me convidou para ser diretora pedagógica da Rua Sésamo na RTP. A verdade é que eu já conhecia o formato americano e fazia sentido manter o objetivo inicial do programa nos Estados Unidos: conseguir fazer chegar a educação de infância às crianças a que a ela não tinham acesso, cerca de 70%. O programa destinava-se também aos PALOP. Fizemos ainda uma revista, dedicada aos mais novos, aos pais e aos educadores.
PNA. O que destaca da sua carreira profissional?
MEBS. Ter participado na transformação do sistema educativo português, altamente repressivo, opressor e elitista, numa educação que procura ser para todos, inclusiva e colaborativa. Gostava que abrangesse as várias dimensões da pessoa humana, algo que hoje no sistema não tem ainda o desenvolvimento necessário. Porque é precisamente a diferença que nos faz pensar. A educação também não pode, entre outros aspetos, esquecer a educação para a cidadania e a educação artística.
PNA. Qual é hoje o grande desafio da educação?
MEBS. Saber lidar com a mudança e a incerteza, por isso é cada vez mais necessário valorizar a sua dimensão afetiva.
PNA. E qual é a tarefa infinita da educação?
MEBS. A educação é ela própria um esforço infinito, sempre inacabado. Dois conceitos ilustram-no especialmente: a educação permanente e a educação inclusiva.
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