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ENTREVISTA.

Entrevista a Maria João Frade, Ana Sendas e Susana M. G. Silvério

“Nós propusemo-nos a fazer uma revolução e as revoluções são mesmo assim: as artes confluem para as liderar.”

As três narrativas diferentes de Maria João Frade, fundadora da Casa da Avenida, Susana M. G. Silvério, coordenadora do Projeto Cultural de Escola (PCE), e Ana Sendas, bailarina, encontraram um espaço e um tempo comuns nas Cartografias do Fim do Mundo. Este título, que poderia ser de um livro de poesia, é o título do PCE do AE Lima de Freitas, em Setúbal. A localização isolada da escola faz com que os alunos vivenciem um sentimento de insularidade - para eles, um quase fim do mundo - agora redesenhado no mapa com novos meridianos e paralelos, que colocam a escola e, consequentemente, os alunos, no centro da comunidade. A Casa da Avenida foi o artista residente coletivo durante este ano letivo no Agrupamento

PNA. Qual é a vossa história até chegarem ao ponto em que se cruzam numa residência artística num PCE?

MJF. Eu nasci em 1954. Licenciei-me em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e fiz também um mestrado em Linguística na Universidade Nova. Fui professora toda a vida. Em 2012, fundei a Casa da Avenida, em Setúbal. A Casa da Avenida é uma casa, é um lugar, é um projeto. É uma casa de serviço público, onde eu sinto verdadeiramente que posso ser útil para alguns, aqueles que quiserem. É uma casa onde moram exposições, música, livros, performances, conversas, descanso. É uma casa para todos os que nela quiserem entrar. Como não tenho formação nas artes, tenho a sorte de ter comigo amigos que me ajudam muito a pensar. Juntos construímos um programa que abrange as artes plásticas, o teatro, a literatura, etc., sempre com uma forte componente educativa, que é um dos grandes pilares desta casa, existindo, portanto, um trabalho estreito com as escolas, através da realização de oficinas, de residências e de visitas à Casa. Temos algumas parcerias com a Câmara Municipal de Setúbal, fruto do reconhecimento do nosso trabalho, sobretudo na área da educação. Posso, assim, dizer que conhecemos bem todas as escolas do concelho, com quem mantemos uma relação privilegiada. Habituaram-se a entrar e a sair desta casa. E a voltar. A Casa da Avenida é a causa de eu ter chegado à residência artística do PNA no AE Lima de Freitas.

SMGS. Eu nasci em Luanda, em 1973. Cresci na Alemanha e foi aí que completei o 1.º ciclo. Depois, mudei-me para Coimbra, onde prossegui os estudos, terminando o ensino secundário e, mais tarde, o ensino superior. Estudei Línguas e Literaturas Modernas, variante Inglês/Alemão. No entanto, já depois da licenciatura e de um mestrado nesta área, dediquei muito tempo à Antropologia, entre Évora e o ISCTE, em Lisboa, num doutoramento que acabei por não terminar. A isto seguiu-se um mestrado em Artes Performativas na Escola Superior de Teatro e Cinema, na Amadora. Pelo meio, passei por uma série de projetos e de escolas. Estive no antigo PIEC, Programa para a Inclusão e Cidadania, e fui responsável por um projeto da raia, Terra Nómada, com as comunidades ciganas. Estive sempre muito atenta à urgência da ligação entre as artes e a educação. E batalhei também sempre muito por uma educação menos formal.

AS. Nasci em Lisboa, em 1977. Desde muito pequena, logo aos três anos, soube que queria dançar. E foi numa escola, em Setúbal, na Academia de Dança Contemporânea, que me formei em 1994. Foram anos mesmo muito intensos e exigentes, com horários que ocupavam o dia todo, entre disciplinas teóricas e a dança. Aos 18 anos, ainda muito nova, consegui entrar para a Companhia de Dança de Setúbal e aos 20 fiz a minha primeira audição profissional na Holanda, onde acabei por ficar. A partir daí mantive sempre a minha profissão como bailarina profissional. Vivi na Alemanha, na Holanda e na Áustria. Em 2004, regresso a Portugal para ingressar no Ballet Gulbenkian, que, infelizmente, terminou, de forma abrupta, um ano e meio depois de eu ter chegado. Este fim, tão súbito quanto inesperado, fez-me zangar de tal forma com a dança, que decidi ir estudar fotografia para a ARCO, com o objetivo de desistir da minha profissão. Todavia, no meio de toda esta revolta com a dança, surge uma proposta para integrar uma companhia em Gotemburgo, na Suécia. E aceitei. Fiquei 15 anos entre a Suécia e a Dinamarca. Voltei há um ano e meio. Paralelamente a tudo isto, no que diz respeito à minha ligação com a educação, estive sempre envolvida em projetos, que fui desenvolvendo como bailarina e coreógrafa, para alunos mais desfavorecidos, o que fez com que tenha estado sempre muito perto dos problemas reais, como, por exemplo, os que se vivem numa prisão.

PNA. Qual é a importância da presença das artes na escola?

SMGS. Quanto maior é a amplitude do que se vê, do que se sente, do que se ouve, do que nos atravessa, maior é a perceção da importância absoluta das artes, ou seja, o entendimento de uma ligação intrínseca entre artes e educação. Desde muito cedo, talvez por andar pelo mundo em contacto com diferentes culturas, percebi a impossibilidade de separar a arte e a cultura da vida, de separar a arte e a cultura da intervenção. A arte é fundamental para reconhecer o nosso lugar no mundo, o nosso lugar na relação com os outros e também para entender a forma como podemos estar no mundo, intervindo nele com sentido crítico.

PNA. Essas convicções refletiram-se na vida profissional?

SMGS. Tudo o que fiz na educação teve impacto precisamente por partir desta convicção de que a arte tem de estar sempre presente. A arte serve para nos conhecermos, pois todos os processos de criação levam-nos até um significado cultural e histórico de nós próprios e de onde nos posicionamos. A arte dá uma enorme elasticidade, densidade e intensidade ao pensamento, para além de nos colocar num contexto de memórias.

PNA. De onde parte o vosso PCE?

SMGS. O nosso PCE parte de um sentimento que os alunos têm da nossa escola: sentem-na no fim do mundo. Parte ainda da construção de uma identidade e também de um lugar, o que era consubstancial a tudo o que já tínhamos trabalhado. No PCE está plasmada a forma como nós podemos intervir no mundo e como o mundo pode intervir em nós, despertando e criando, assim, um sentido crítico em todos os intervenientes, o que, para mim, é um dos grandes poderes da arte.

PNA. Como coube a Casa da Avenida nessa intervenção?

SMGS. Eu já tinha a felicidade de conhecer a Maria João. A Maria João é demasiado humilde quando fala da Casa da Avenida, porque esta casa é uma zona de fronteira, de terra de liberdade, de terra franca. Acolhe artistas com a maior das generosidades, abrindo as suas próprias portas, mas também abrindo outras portas. É uma casa que abre mesmo portas e isto tem, na verdade, de ser sublinhado. E a Maria João chegou até nós já com uma reflexão sobre o que ela percecionava sobre artistas residentes para este ano letivo, um leque de artistas ambicioso e interessante, já pré-selecionado, a Graça Pinto Basto, a Djaimilia Pereira, Os Espacialistas e a Ana Sendas. Achei muito interessante este leque inicial, porque cobria áreas artísticas muito distintas e, portanto, ia ao encontro daquilo que nós nos propúnhamos a fazer, ou seja, construir algo performativo e abrangente.

PNA. Conquistaram-se, de imediato, os alunos?

SMGS. Foi muito curioso, porque os miúdos foram contaminados, muitos deles pelos quatro artistas, o que permitiu criar uma sinergia interessantíssima, uma vez que os diferentes projetos confluíram para uma mesma maré, de uma forma muito natural, muito orgânica, que é como as coisas devem ser. Neste caso, nós propusemo-nos a fazer uma revolução e as revoluções são mesmo assim: as artes confluem para as liderar.

PNA. Os alunos aderem facilmente a essas revoluções?

SMGS. Os alunos vão sendo inspirados por exemplos, como os do trabalho da Maria João, e acabam por ser eles a apresentar projetos. Houve um grupo de alunas do ensino secundário que se mobilizou para a criação de um projeto de leitura expressiva para o 1.º ciclo, o Conto & Ponto. Vê-se aqui um claro movimento do empoderamento feminino, o que é extremamente interessante. Por sua vez, devido à localização isolada da escola, nas atividades de sexta à tarde, os miúdos tinham de se organizar previamente, tinham de trazer almoço, por exemplo. E de ficar muito tempo à espera.

PNA. E os professores?

SMGS. O PNA está a criar uma estrutura ambiciosa, que passa por trazer uma consciência, que deveria ser óbvia, de que as artes têm de estar obrigatoriamente na escola, mas não apenas a enfeitar. Quando se concebe uma estrutura como a do PNA é porque existe uma consciência de que isso não acontece de uma forma muito natural dentro das escolas e é obvio que, também pelas políticas educativas que temos tido, e que são muito vocacionadas para uma avaliação pura e dura, para os exames, não é possível que existam condições para uma reflexão de fundo sobre o espaço que tem de haver para as pessoas crescerem, com sentido crítico, com pensamento elástico.

PNA. Os momentos de reflexão são, na verdade, muito importantes.

SMGS. Nada disto se consegue sem uma discussão, sem uma reflexão, sem olhar para coisas, sem as sentir. E é isto que as artes nos dão. O território artístico, que não é árido, quando confrontado com programas, que muitas vezes são áridos, cria cisões, porque os professores têm prazos para cumprir, têm objetivos que lhes são impostos. Por isso, sim, é necessário um trabalho de aproximação aos professores.

PNA. Essa aproximação é lenta?

SMGS. Sim, é necessário dar pequenos passos, caminhar com os pés bem assentes na terra, até porque nós vivemos no “fim do mundo”, onde há miúdos com dificuldades a vários níveis. Mas, quando começámos a cuidar do nosso território, no sentido de o preparar fisicamente para as atividades artísticas, criámos elos. Este será o primeiro passo. Por muito bonitas que sejam as ideias, por muito revistas que sejam as teorias, por muito impactantes que sejam as cores, nada se faz sem as pessoas e sem as relações que nascem entre elas. A escola faz-se com pessoas. A arte faz-se com pessoas. A vida faz-se com pessoas. Depois, quando começámos a burilar pelo território, fomos conseguindo agregar alunos, professores. A seguir vieram os artistas. Houve momentos em que gravitámos, voltámos ao início, seguimos em frente.

MJF. Foi um processo lento e longo.

PNA. Foi preciso preparar um plano rígido?

SMGS. Não partimos de um grande plano, embora nos tenhamos guiado por algumas linhas mestras, como as cartografias. Tratou-se de um plano móvel e mutante, tratou-se de projetos igualmente móveis e mutantes.

MJF. A ideia de estarmos no fim do mundo, que pode ser também o princípio do mundo, por ser tão lata e abrangente, talvez tenha permitido a construção de uma identidade e abriu a possibilidade de nos ligarmos uns aos outros através das cartografias, dos territórios, dos lugares, dos nossos mundos.

PNA. Quais foram os principais desafios?

SMGS. O AE Lima de Freitas, pelo seu fim do mundo, pelo sítio onde está inserido, pelas características intrínsecas dos miúdos e da nossa população, já demonstrava uma vontade e uma abertura para acolher projetos que permitam fazer mais e ir mais longe. Obviamente que há sempre desafios. No entanto, sentimos que os desafios foram ganhos pelos miúdos. A partir do momento em que eles percebem como tudo isto é essencial, não abdicam das artes e são os primeiros a lutar por elas. Este ano letivo tivemos miúdos a mostrar que conseguem fazer dois projetos ou até mesmo três, se necessário for. O que eles já não querem é perder mais o seu espaço de liberdade e de crescimento. Esta entrega dos alunos e os próprios projetos foram conquistando também os professores.

PNA. Em que consistiram as residências artísticas?

MJF. As residências foram pensadas com base em quatro pilares: a biografia, a identidade, o território e a memória. Quatro temas que, no fundo, permitiam uma fácil articulação e que podiam ser trabalhados nos diferentes níveis de ensino. Eu e a Graça Pinto Basto trabalhámos o retrato, o caminho de casa para a escola, a representação do mundo, através da ilustração e da criação de histórias, com os alunos do Jardim de Infância e do 1.º ciclo, na escola e também na Casa da Avenida, onde aqueles vieram todos os meses continuar a desenvolver as temáticas e a fruir das paredes da Casa. Tudo isto só foi possível pela dedicação heroica das professoras, como a Ana Isa, que desceram e subiram com os miúdos, a pé, da periferia até ao centro da cidade. Paralelamente, nessas visitas, recebemos alguns alunos do 12.º ano do Curso Profissional de Ação Educativa de Apoio à Infância, que puderam aprender e refletir connosco sobre aquela que será a sua área profissional. Este cruzamento de idades, de interesses, de níveis de ensino, enriqueceu muito este projeto, onde foram criados laços e reforçados afetos.

AS. Essa diferença de idades permitiu mesmo que se vivesse um sentimento de pertença a um grupo, a uma comunidade.

PNA. E a Djaimilia, Os Espacialistas e a Ana?

MJF. A Djaimilia trabalhou com um pequeno grupo do 10.º ano, em que a ideia foi juntar a criação literária ou poética com a ocupação do espaço e o reconhecimento do corpo. Todo este trabalho foi fotografado e documentado pelo Humberto Brito, que acompanhou as sessões. Os Espacialistas, em articulação com uma professora de geografia, Paula Ribeiro, trabalharam o território e a ocupação do espaço com três turmas de 12.º ano. E a Ana trouxe a poética do movimento e do corpo, associando-se ao projeto de artes performativas da escola.

PNA. É fácil ter artistas que queiram fazer residências artísticas nas escolas?

MJF. Depende. É necessário ir bater a portas e conversar. No caso da Djaimilia, por exemplo, uma escritora fabulosa, que nunca tinha trabalhado com escolas e com alunos, aceitou participar nesta residência pela convicção e consciência que tem de que foi a escola que a salvou. E, portanto, quis agora ser ela a responsável por esse salvamento, mesmo que seja de apenas um aluno. Nestes tempos difíceis em que vivemos, em que precisamos tanto todos de salvação, a ideia de que a escola pode salvar é de uma riqueza e de uma força imensas.

PNA. É, de facto, impactante, reconfortante e motivadora essa imagem.

SMGS. Eu não queria ser professora. Sou professora por causa da parte da escola que me salvou. Não fui a única salva. Fomos centenas. Mas atenção, a escola tanto mata como salva. Estamos a viver um período muito complexo, onde se veem novamente certos extremismos a aflorar. Por isso é tão importante termos uma visão esclarecida, consistente e fundamentada sobre a nossa identidade e sobre aquilo que queremos. Para isso tem de haver reflexão. Se dentro de uma escola não estiverem pessoas com estrutura, com competência, com tempo para reflexão, com tempo para estudar, a escola só vai matar.

AS. É extremamente importante que os professores compreendam os alunos, porque as escolas são sítios onde se pode fazer muito.

PNA. O que se pretende quando se traz gente de fora para dentro da escola?

MJF. A ideia de trazer gente de fora visou quebrar o normal funcionamento da escola, cuja engrenagem, que até pode funcionar bem, acaba por estar demasiado formatada. Quem chega de fora traz outra maneira de falar, de ver o mundo, traz outros contributos, indisciplina, como o PNA gosta de dizer. Tudo isto alarga horizontes e deixa marcas. Nós gostaríamos que, daqui a muitos anos, estes miúdos se lembrassem de tudo o que experimentaram, do que fizeram, do que gostaram mais ou menos. Queríamos que esta breve oportunidade de contactarem com outras pessoas tivesse um impacto de tal forma significativo, que jamais possa ser esquecido. É como mostrarmos várias portas, várias possibilidades, vários caminhos. Depois, cada um escolhe o seu.

PNA. Como se prepara uma residência artística numa escola?

AS. Em Portugal foi a primeira vez que fiz uma residência artística. Um projeto como este valoriza os artistas e o papel que os professores têm, o que me deu uma felicidade imensa e me apaziguou, de certa forma, com o país em relação à educação, às escolas e ao apoio dado aos artistas. No início da residência, o meu intuito não era sequer apresentar um espetáculo. Precisei, primeiro, de perceber qual poderia ser o meu contributo, não só como artista, mas como pessoa que se alimentara de arte a vida toda. Trazer a dança para as escolas, principalmente para as escolas públicas, para alunos que estão sentados imensas horas, com baixa autoestima, consequência destes tempos exigentes que vivemos, agravados por uma pandemia, mostrou-me a cabal importância da relação entre a arte e a educação. O mais importante da residência artística é permitir que os alunos passem pela experiência. Independentemente do resultado final. Portanto, a preparação de uma residência artística parte da vontade e assenta completamente no trabalho colaborativo, que exige tempo.

SMGS. Sim, é muito mais importante o processo do que o espetáculo. Quando nos focamos no processo, conseguimos ter connosco os miúdos todos. Se, pelo contrário, o nosso foco for o espetáculo, só temos connosco alguns. E isto faz toda a diferença, sobretudo para alunos com baixos resultados escolares, com necessidades educativas, com pouca confiança neles, porque desenvolve competências, porque os aproxima, apesar das muitas diferenças. É uma aprendizagem sobre o falhar e conseguir manter-se em pé, pois há um grupo inteiro a apoiar, sobre o aprender que qualquer coisa mínima se torna maior quando nos juntamos.

MJF. Foi tão bonito ver a transformação daqueles miúdos.

PNA. Onde se encaixa uma residência artística na gestão organizacional de uma escola?

SMGS. Enquanto coordenadora do PCE do PNA, tive total apoio da direção da escola, dentro do que é possível. Todavia, é sempre necessário acreditar no que se faz, ter vontade, visto que há muito trabalho feito para além do horário semanal atribuído. Por exemplo, o projeto Vésperas de Liberdade e o projeto da Djaimilia foram desenvolvidos fora do horário letivo dos professores e dos alunos. O Vésperas de Liberdade contou com a parceria da professora Ana Cláudia Sousa, responsável pelo clube Há Música na Lima, que nos acompanhou em muitas dessas tardes de sexta-feira. Por sua vez, o projeto com Os Espacialistas foi feito em articulação com a professora Paula Ribeiro, que é professora de geografia, e que abriu as suas aulas a uma nova maneira de abordar conteúdos. Tornar tudo isto em projetos transdisciplinares ainda é muito difícil, porque não estamos habituados a trabalhar desta forma. No entanto, honestamente, quero acreditar que se no próximo ano letivo nós quisermos agregar mais docentes aos projetos, os professores, pelo impacto, pela forma como os miúdos se envolveram, vibraram e se posicionaram, aparecerão em maior número, por contaminação.

MJF. A maneira como as escolas se organizam não facilita a operacionalização de residências artísticas. As conversas, discussões e reflexões acabam por ser esporádicas. Falta essencialmente tempo. O cenário ideal seria fazer os horários, para os professores e para os alunos, com momentos comuns de encontro entre todos. Todos os projetos sobrevivem sobretudo pela boa vontade, pelo voluntarismo, pela dedicação imensa de quem acredita e pelo desejo de quem quer.

AS. Mais importante do que levar a dança e a arte para as escolas, é como chegar à arte, como chegar à dança. E as escolas ainda não estão preparadas para isto.

PNA. O que leva um artista residente de uma escola?

AS. Eu, logo de imediato, ganhei dias de um silêncio introspetivo, mas feliz. Ganhei também a felicidade de acompanhar os alunos num processo de transformação. Vê-se muita força e muita vontade nas escolas, nos professores. Foi muitas vezes neles que encontrei inspiração.

MJF. Apesar de todos os obstáculos, que foram imensos, chegámos ao fim felizes, entre o choro e o riso, porque foi tudo tão bom.

PNA. Ou seja, a arte pode ter essa capacidade de transformar?

AS. Claramente. No início havia muitos miúdos voltados para dentro. E a arte tirou-os daquele lugar fechado para fazer com que se abrissem para os outros e com que se vissem de forma diferente. Criaram-se laços. É muito urgente que se criem momentos nas escolas para se ser livre. E ser livre é dar a resposta errada e é aprender a conversar em conjunto.

PNA. O que falta ainda?

MJF. Mesmo tendo sido uma experiência ótima, falta sempre melhorar. É como se este ano letivo tivesse sido uma espécie de ensaio de residência artística.

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