Em caso de dificuldade de visualização, poderá aceder à Newsletter no site do PNA. Newsletter
ENTREVISTA.

Entrevista a Maria do Rosário Figueiredo, coordenadora PCE do AE de Mira

Maria do Rosário Figueiredo nasceu a 2 de setembro de 1957, na Figueira da Foz, num tempo que era o das férias dos pais. Cresceu em Lisboa, mas quis orgulhosamente dizer-nos que é um “produto” dos Olivais Norte, tal como o vizinho Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés. Não foi professora toda a vida. Foi globetrotter durante 5 anos. Dos 26 aos 31 anos viveu um pouco por todo o lado – na Austrália, em Londres, na Dinamarca - e teve trabalhos diferentes. Trabalhava seis meses para poder viajar pelo mundo nos outros seis. Estudou História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e é a coordenadora do projeto cultural de escola (PCE) do AE de Mira. Diz-nos que os alunos de hoje em dia são mais informados, mais combativos e mais críticos. Mas diz-nos também muitas outras coisas.

PNA. Quando saiu da Faculdade de Letras, começa a sua carreira de professora. No entanto, resolve fazer um intervalo, sair de Portugal e, consequentemente, da profissão. O que lhe trouxe esse intervalo?

MRF. Aquilo que viver fora nos traz é descentrarmo-nos relativamente a um pequeno mundo. Lisboa era então um mundo monocromático. E o mundo que encontrei lá fora era colorido, porque me permitiu conviver com pessoas que vinham de outras culturas, que tinham outras vivências, outras histórias. Conheci pintores, músicos. Visitei exposições. Fui a espetáculos. As semanas eram vividas de forma muito intensa e diversa, com conversas e partilhas.

PNA. Regressa e volta ao ensino.

MRF. Sim, voltei à profissão que me permite fazer coisas diferentes todos os dias. E é precisamente por isto que sou muito feliz como professora.

PNA. Como foi a sua carreira enquanto professora?

MRF. Já dei aulas em 17 Escolas, em diferentes localidades do país. Tive vários cargos, mas destaco o de coordenadora da biblioteca escolar durante 18 anos, 16 dos quais no AE de Mira.

PNA. Porquê esse destaque?

MRF. Foi um trabalho não só longo como de dedicação total. O AE de Mira tem 4 bibliotecas, o que implica ter equipas de trabalho diferentes em 4 núcleos distintos. E eu nunca escolhi essas equipas de trabalho. Qualquer um de nós pode logo pensar numa série de pontos negativos que daqui advêm, mas a verdade é que me trouxe muitos desafios, uma vez que me obrigou a trabalhar com colegas com visões e formas de estar diversas. Nem sempre foi fácil. Porém, foi sempre desafiante. Percebi que se eu fosse à frente, num ato de comprometimento, havia quem viesse atrás.

PNA. Foi, portanto, um trabalho de paixão?

MRF. Completamente de paixão. De paixão pela parte criativa. De entrega absoluta. No entanto, metade do trabalho do cargo era dedicado à burocracia. E eu não gostava nada desta metade, tão enredada em papéis. O Plano Nacional das Artes trouxe-me a alegria imensa de deixar esta última parte bem lá para trás.

PNA. Deixa, então, a coordenação da biblioteca escolar e passa a ser coordenadora do PCE pelo PNA.

MRF. Sim, o convite surgiu do diretor e o meu primeiro impulso foi dizer que não. Mas o diretor não desistiu de mim. Falámos, refletimos, até ao ponto de nos acertarmos. E aceitei.

PNA. Há um perfil para se ser coordenador PCE?

MRF. É preciso ser-se audaz. Insistir. Insistir. E voltar a insistir. É preciso ser-se dinâmico, criativo, ter um olhar amplo sobre o mundo, sobre as pessoas.

PNA. Como é que se começa a construção de um PCE?

MRF. Começa-se com um ano zero. Eu lancei um repto, através de um questionário, à comunidade escolar para sugerirem temas. Foram muito poucas as respostas. E o tema escolhido teve inevitavelmente de resultar de um olhar sobre o território envolvente. Sendo Mira uma vila que, embora se encontre perto do mar, tem uma grande atividade agrícola, decidimos “Entrançar a terra e o mar”, valorizando a agricultura e a pesca, incluindo todos.

PNA. Como é que se passa de poucas respostas a um questionário para a conquista de toda uma comunidade?

MRF. Com um contacto muito personalizado. Indo ao encontro de cada um. Percebendo os outros, ajustando-nos uns aos outros. É um trabalho de sedução, de cedência e de entrega. E para se acolher todos, é necessário pensar em atividades de qualidade que abranjam os vários ciclos de ensino e que tenham um impacto efetivo na aprendizagem dos alunos.

PNA. Qual foi o papel dos alunos na construção do PCE?

MRF. Os alunos foram ouvidos. Para isso, foram criadas estruturas em que eles se pudessem rever e, portanto, se envolvessem. No ano letivo passado, por exemplo, criámos um clube de artes. E o clube ficou demasiado pequeno com tantos, tantos, alunos que apareceram. Com isto, percebemos o quanto eles precisavam daquele clube.

PNA. E a seguir? Como foi levar o PCE para fora dos portões da escola?

MRF. Eu levava de vantagem 16 anos de conhecimento sobre a autarquia, fruto do meu cargo anterior. Mira é um concelho pequeno e, ao contrário do que possa parecer, os concelhos pequenos têm muito mais possibilidade de apresentar um trabalho articulado do que os grandes. Estamos todos fisicamente muito próximos – a Escola, o Museu, a Câmara, a Casa da Cultura. Este é o grande trunfo de Mira. Sente-se muito a existência dessa articulação na e com a autarquia, onde há muito dinamismo e envolvimento, com muito foco no trabalho colaborativo. Foi precisamente a autarquia que contratou um artista residente, vindo de trabalhos muito precários, e que tem feito um trabalho incrível com toda a comunidade, dentro e fora da Escola. O Carlos Lourenço é, sem dúvida, fundamental. É um orgulho para esta comunidade e é muito gratificante sentir que toda esta grande equipa PCE contribuiu para este reconhecimento, para esta valorização da pessoa e do profissional.

PNA. O que pode trazer um artista residente a uma Escola?

MRF. Pode mudar uma Escola. No caso do Carlos, destaco a quantidade de vezes que faz do mundo lá fora uma sala de aula. Transformar jardins, museus em salas de aula traz sorrisos aos alunos, quebra rotinas. Aprende-se de maneira mais feliz.

PNA. De que forma o trabalhar “com” e não “para” tem influência no impacto das atividades inscritas num PCE?

MRF. Diria que esta forma de trabalhar é mais duradoura e significativa, por ser consistente, pensada, refletida. Nós conseguimos, por exemplo, que o Museu do Território da Gândara passasse a ter atividades educativas regulares. Havia as visitas, que acabavam por cair numa espécie de vazio quando terminavam. O Museu tem agora um serviço educativo muito interessante e consistente, porque é desenhado com a escola. Em conjunto, delineamos ações, concebemos atividades, analisamos os resultados. Voltamos atrás. Recomeçamos. E fazemos melhor.

PNA. Fale-nos de uma atividade do PCE.

MRF. O nosso PCE parte das tradições locais. Uma delas é a dos Caretos da Lagoa, uma máscara carnavalesca muito típica da Lagoa de Mira. Com o nosso artista residente começámos uma atividade-teste de pintura e escultura com uma turma da Educação Pré-Escolar. Era o início e nós precisámos primeiro de perceber qual o impacto do trabalho que tínhamos pensado. Este ano letivo, estendemos essa atividade aos restantes ciclos de ensino, às restantes turmas. Tudo de forma voluntária. Nunca forçámos ninguém. Nem seria preciso, na verdade.

PNA. Sabemos que essa atividade se transformou mais tarde numa curadoria.

MRF. A minha ideia era mostrar aos alunos que existem outras máscaras com outras histórias diferentes da história das máscaras da Lagoa de Mira. Para isso, conseguimos uma residência artística de duas pessoas, um poeta angolano, Zeto Cunha Gonçalves, e a editora Raja Litwinoff, da Falas Afrikanas. Pensar que tudo isto começou quando eu comprei um livro que a Raja editou é surpreendente. Eu gostei tanto do livro, que decidi escrever-lhe. A nossa correspondência acabaria por se transformar numa residência artística, com o apoio da autarquia e o financiamento de uma fundação, a Engagement Global, que apoia projetos de integração. As máscaras voltaram a ganhar vida, desta vez em oficinas de poesia e escrita criativa para os alunos e numa ação de formação para os professores. No próximo ano letivo, eles vão regressar com um encenador, alargando a atividade a mais uma área artística.

PNA. O que se ganha com estas metodologias mais ativas das oficinas, à volta de objetos artísticos?

MRF. Os miúdos foram encantados para casa escrever mais poemas. Os professores de Português, em articulação com os convidados, introduziram as aprendizagens essenciais de forma lúdica. E não há forma melhor de aprender.

PNA. O que semeia o PNA?

MRF. Semeia a eloquência de quem o pensou. Semeia interajuda e sorrisos. Semeia pensar em conjunto. Semeia a valorização de todos: os que escrevem, os que leem, os que correm, os que pintam, os que jogam xadrez, os que pulam. Todos merecem ser festejados, mesmo que as suas vitórias estejam circunscritas a pequenos nichos. A arte empodera as pessoas.

Caso pretenda subscrever a newsletter siga este link.
Em caso de dificuldade de visualização, poderá aceder à Newsletter no site do PNA. Newsletter
Facebook
https://www.pna.gov.pt
Email
Instagram
 Copyright © PNA, All rights reserved.
e-mail: info@pna.gov.pt
Want to change how you receive these emails?






This email was sent to << Test Endereço de email >>
why did I get this?    unsubscribe from this list    update subscription preferences
PNA - Plano Nacional das Artes · Campo Grande 83 · Campo Grande · Lisboa 1600 · Portugal

Email Marketing Powered by Mailchimp