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ENTREVISTA.
Entrevista a Ana Saraiva, Catarina Pereira, João Viegas, Maria Melo e Tomás Almeida Sá
A Ana Saraiva, a Catarina Pereira e a Maria Melo vivem em Aveiro e, para além do sorriso fácil em comum, são colegas de turma. Melhor, de turmas. Frequentam o 10.º ano do Curso Científico-Humanístico de Ciências e Tecnologias no AE Dr. Mário Sacramento e estudam também na Escola de Ensino Artístico do Conservatório de Calouste Gulbenkian, em Aveiro. O João Viegas vive em Tavira e é aluno do 10.º ano do Curso Científico-Humanístico de Humanidades do AE José Belchior Viegas, em São Brás de Alportel. O Tomás Almeida Sá vive em Viseu e está no 11.º ano do Curso Científico-Humanístico de Ciências e Tecnologias da ES Emídio Navarro. O olhar crítico dos seus 15 e 16 anos - de uma geração de alunos “stressada”, como os próprios afirmam - sobre educação mostra-nos a importância de os ouvirmos, explicam-nos que “as notas não nos definem como pessoas” e que o contacto com a diversidade é uma das maiores aulas da vida.
Todos eles fizeram parte do Focus Group Classroomview (grupo de trabalho), que foi criado para ouvir e para debater com jovens questões relacionadas com a exposição “Sala da Aula, um olhar adolescente”, nomeadamente o espaço sala de aula, as metodologias de ensino/aprendizagem e a falta de mecanismos de comunicação dentro da Escola para ouvir, debater e construir com os alunos. A Daniella Figueiredo, mediadora convidada pelo CCB, e a Rita Brito, gestora de redes sociais e editora de conteúdos do CCB, acompanharam este processo que durou cerca de 2 meses e juntou 16 jovens de diferentes zonas do território nacional. O projeto culminou com a produção de conteúdos para as redes sociais da exposição e também de conteúdos físicos que fazem parte da mesma. A exposição integra a Bienal Cultura e Educação #1 do Plano Nacional das Artes e pode ser visitada até ao dia 10 de setembro no Centro Cultural de Belém/Garagem Sul.
PNA. É usual ouvirmos alunos dizerem que gostam de ir para a escola mas não gostam de estar nas aulas. O que explica esta aparente contradição?
AS. Uma coisa é o convívio, outra são as aulas. As aulas, às vezes, são um bocado chatas. Gostarmos ou não das aulas depende muito quer do professor quer da matéria que estamos a aprender.
JV. Gostar de ir para a escola e gostar de estar nas aulas são realidades, de facto, diferentes. Eu, por exemplo, gosto de ir para a escola, porque gosto de estar com os meus amigos. E, embora goste de aprender, gosto principalmente de poder estar com as pessoas de quem gosto.
MM. Quando eu vou para as aulas do Conservatório, vou mais motivada, porque gosto muito de música. Então, sim, é verdade que as matérias que nos são ensinadas têm um influência enorme sobre o gostar de uma determinada aula.
TAS. Também acho que o convívio entre colegas e as aulas propriamente ditas são vivências completamente distintas, o que pode despertar, portanto, sentimentos diferentes. E, na verdade, o gostar de uma determinada aula pode depender de múltiplos fatores, como a dinâmica da aula, a conversa professor/aluno, a matéria em si.
PNA. Como são, então, as aulas de que gostam mais?
AS. São, sem dúvida, as aulas mais interativas, mais práticas. A maior parte das aulas só teóricas demora uma eternidade a passar.
JV. São as aulas mais práticas, com muitos exercícios. O tempo passa muito devagar quando as aulas são demasiado teóricas, em que o professor se limita a falar.
TAS. Sim, as aulas práticas são as que passam mais depressa. No entanto, se gostarmos da matéria, também há aulas teóricas muito interessantes. Eu, por exemplo, gosto muito da disciplina de Filosofia não só por causa da matéria, mas também pelo facto de a professora ser muito carismática.
PNA. Quer isso dizer que um professor pode mudar o que sentimos por uma determinada disciplina?
CP. Sim! O professor consegue influenciar completamente o modo como nos sentimos nas aulas.
JV. Totalmente. Um professor pode inclusive contribuir para que consigamos ter classificações mais elevadas, porque, lá está, nos pode levar a gostarmos de uma disciplina de que poderíamos nem gostar nos anos anteriores.
PNA. E como são esses professores que nos marcam de forma tão positiva?
AS. São os que gostam de nós.
MM. E os que não falam para nós mas que falam connosco!
JV. São professores que nos dão a aula, até porque reside aqui a sua principal função, mas que estão sempre muito próximos de nós. São os que conseguem aproximar-se de nós, seja dentro ou fora da sala de aula.
CP. Sim, a relação de proximidade professor/aluno é muito importante, pois há professores que não se preocupam com o nosso bem-estar nem querem saber se percebemos ou não a matéria. Se sentimos um professor distante de nós, à partida, nós vamos acabar por sentir o mesmo, o que contribui para nos afastarmos da disciplina que ele nos dá.
TAS. Concordo. A proximidade é algo importante, mas o profissionalismo também é.
PNA. Ou seja, a exigência não é uma caraterística negativa de um professor?
TAS. Não é mesmo.
PNA. A escola é um lugar de aprendizagem teórica e também de experimentação. A teoria é mais importante do que a prática ou vice-versa?
JV. São ambas muito importantes. O saber é a base do saber fazer, pelo que deve haver um equilíbrio entre as duas.
TAS. As duas complementam-se. Às vezes, a teoria não é totalmente compreendida até se pôr em prática. Contudo, eu tendo a dar muita importância ao conhecimento. É a base do saber fazer.
MM. Acho que se aprende mais com o saber fazer, porque implica já um saber teórico anterior.
PNA. E a escola valoriza mais algum deles?
JV. Nós fazemos muitos testes e não fazemos tantos trabalhos. E são estes trabalhos que nos exigem, por exemplo, sermos autónomos. Sinto que somos mais avaliados pelo saber teórico e seria mais justo se houvesse uma equivalência no peso da avaliação destes saberes distintos. São muito poucas as disciplinas em que fazemos trabalhos mais práticos.
CP. Sim, e para além disso, a escola também nos deveria valorizar mais enquanto cidadãos, porque as notas não nos definem como pessoas.
TAS. No Ensino Secundário, nos cursos Científico-Humanísticos, o saber teórico é mais valorizado.
PNA. Falando sobre esse saber teórico, a vossa geração é marcada pela possibilidade de ter, através da internet, acesso a basicamente toda a vasta e múltipla informação que compõe o mundo. Aprender na internet é igual a aprender com um professor?
JV. É muito diferente aprender com alguém que está ao nosso lado. E também é muito diferente aprender com alguém que estudou para nos ensinar.
TAS. A proximidade tem uma influência positiva na aprendizagem. Aprendemos bem essa lição durante as aulas online quando estivemos em confinamento, na pandemia.
PNA. Na vossa escola é já habitual haver trabalhos interdisciplinares, com a participação de duas ou mais disciplinas?
JV. Sim, fazemos DAC.
TAS. Sim, nos projetos em que há articulação entre várias disciplinas.
PNA. De que forma o património cultural que nos rodeia e a forma como o vivemos, quer seja através de idas a concertos ou a teatros, através da participação em oficinas, em experiências, em debates fora da escola, etc., influenciam a formação e a educação dos mais jovens?
MM. Essa influência é tão importante, que o acesso à cultura deveria ser igual para todos os jovens.
TAS. Não nos devemos cingir apenas a uma vida rotineira. Devemos ler um livro novo, ir a um concerto. As experiências artísticas e culturais ampliam-nos a visão que temos do mundo que nos rodeia. Permitem um conhecimento mais real sobre nós e os demais. Fazem-nos crescer muito enquanto pessoas.
PNA. E a escola proporciona a saída dessa vida mais rotineira?
JV. Sim, por exemplo, através das visitas de estudo. E nelas aprendemos de forma mais significativa, porque estamos a viver o conhecimento.
TAS. A escola pode e, sobretudo, deve ter aqui um papel muito ativo.
PNA. Em que pensa um aluno quando é obrigado a fazer opções com a entrada no Ensino Secundário?
JV. Por um lado, considero que a identificação com a área escolhida se revela fundamental aquando da tomada dessas decisões. Por outro lado, considero que fazer opções tão cedo faz-me recear ter feito uma escolha errada e que possa vir mais tarde a condicionar uma entrada numa determinada área no Ensino Superior.
TAS. Sim, a escolha de uma área no 10.º ano é muito prematura.
AS. No meu caso, escolhi a área já a pensar na minha entrada no Ensino Superior, embora a decisão sobre este assunto, sendo um assunto tão sério, seja tomada demasiado cedo.
PNA. O que é o melhor das vossas escolas?
JV. É ter professores muito bons.
AS. As relações humanas. Com os professores e com a turma.
CP. O ambiente acolhedor do Conservatório de Música de Aveiro.
TAS. É a Biblioteca, que é fantástica. Eu gosto mesmo muito da Biblioteca da minha escola. É um espaço calmo, acolhedor, com tantos livros!
PNA. E o pior?
MM. A falta de diversidade. A minha escola está cheia de pessoas estereotipadas, muito iguais umas às outras. E eu gosto tanto de diversidade, pois ela faz-nos aceitar melhor o outro e faz-nos aprender imenso, porque nos amplia o horizonte.
AS. Termos pouco tempo para sermos adolescentes. Tenho a sensação de que praticamente estou sempre a estudar.
PNA. Qual foi o momento mais marcante da vossa vivência na escola?
JV. Pela negativa, posso dizer que são as despedidas. As dos colegas e as dos professores de que gostamos.
TAS. Sim, os momentos de despedida mas também os momentos de chegada.
PNA. Vamos agora passar para a vossa participação no Focus Group Classroomview. O que foi o mais importante desta experiência?
JV. Sentir que nos estavam a ouvir. A sociedade tende a pôr as opiniões dos mais jovens de lado, apresentando-nos atualmente como uma geração que só se sabe queixar. Neste projeto deixaram-nos explicar o que sentimos, o que pensamos sobre a escola.
AS. Sem dúvida, sermos ouvidos e sermos livres.
TAS. Para além da importância de sentirmos que estamos a ser ouvidos, e que é tão importante, uma vez que a escola é um espaço criado para os alunos, foi também muito relevante a escolha dos temas que foram debatidos. É preciso questionarmos o sistema de ensino em toda a sua abrangência.
PNA. E nas escolas há espaço para ouvir os alunos? Em assembleias de alunos, por exemplo.
JV. Não há praticamente espaço para debatermos os assuntos da educação, o que nos deixa a sensação de que não nos querem ouvir.
AS. Na minha escola há uma reunião por semestre com os delegados da turma, no entanto, quer pela periodicidade quer pela própria duração da reunião, é insuficiente.
TAS. Sinto que na minha escola existe esse espaço. Contudo, é difícil perceber se realmente estamos ou não a ser ouvidos e até é difícil perceber até que ponto o que pensamos é usado de forma eficiente, ou seja, na melhoria da escola e do sistema de ensino. Por sua vez, deveria haver um conhecimento mais rigoroso, por parte dos alunos, dos órgãos de que podem fazer parte. Mas também a verdade é que, algumas das vezes, são os próprios alunos que não querem usufruir dessa possibilidade de ter voz.
PNA. Relativamente à exposição “Sala de Aula, um olhar adolescente”, onde viram que a sala de aula pode ser de uma diversidade enorme, sem ter um espaço fixo circunscrito, voltaram com um olhar diferente para as vossas escolas? Não só pelo que viram como também pelo que disseram.
JV. Primeiro, percebi a importância de ouvirmos as opiniões de alunos de outras escolas, tão distintas da minha, que é uma escola pequena. Depois, voltei para a minha escola convencido de que manifestarmos as nossas opiniões tem sempre de valer a pena.
CP. Qualquer confronto de ideias e de opiniões é sempre benéfico.
TAS. Todo o projeto foi muito interessante pela possibilidade de ter podido ouvir novas perspetivas sobre educação de alunos de outras partes do país. E foi também muito interessante conhecer outras escolas, cuja gestão, organização, digamos, cuja dinâmica pode, por um lado, nada tem a ver com a minha ou, por outro lado, pode ter pontos convergentes. Este contacto com a diversidade de visões sobre os mesmos temas tornou-me mais crítico, porque me ofereceu um conhecimento mais aprofundado e sólido sobre educação. Tudo isto me levou a perceber que, de facto, as experiências diferentes moldam a individualidade de cada um de nós.
PNA. Qual é o adjetivo que caracteriza melhor o que é ser aluno hoje em dia, em Portugal?
JV. Forte.
AS. Preso.
MM. Homogéneo.
CP. Stressado.
TAS. Incerto.
PNA. Qual a sugestão que gostariam de deixar para o sistema de ensino em Portugal?
JV. Gostaria que ouvissem mais os alunos.
TAS. Sim, que nos ouvissem mais. E não apenas num contexto mais alargado, da instituição em si, ouvirem-nos dentro da própria sala de aula.
CP. Deveriam mudar a forma como somos avaliados, atribuindo menos peso aos resultados e mais ao trabalho na aula. Nas aulas, trabalhamos em interação, em equipa, o que nos aproxima do mercado de trabalho.
MM. Seria bom se o sistema de ensino nos proporcionasse atividades mais práticas
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