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ENTREVISTA
Kathi Stertzig e Álbio Nascimento, designers de produto
Kathi Stertzig nasceu em Hanôver em 1977 e cresceu numa pequena cidade no norte da Alemanha, de onde saiu aos 18 anos para estudar Carpintaria, apaixonada pelas artes que são feitas com as mãos. O portefólio ali construído permitiu-lhe a entrada na escola Fachhochschule Hannover para estudar Design de Interiores. Em Milão, num ano de programa Erasmus, a vida cruzou-a com Álbio Nascimento, também nascido em 1977, em Faro. Álbio tinha saído recentemente da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, onde estudara Design de Equipamento. Álbio e Kathi viveram, estudaram e trabalharam como designers e professores em Itália, na Holanda, na Bélgica e na Alemanha e em 2015 mudaram-se para Lisboa. São cofundadores do The Home Project Design Studio e criadores do projeto Origem Comum.
PNA. O que mais vos marcou da vossa formação?
A. Tive sempre a sorte de ter professores um pouco fora do sistema, mesmo na escola primária, que nos davam muita liberdade, mas sempre com muita consciência. Eram professores que questionavam o mundo, com uma visão sempre muito crítica, o que nos fazia pensar. Só mais tarde tive consciência do grande impacto que tudo isto teve em mim. Se, por um lado, havia professores que se cingiam ao programa e nos tentavam moldar, por outro lado, havia aqueles mais ousados, que se empenhavam e nos estimulavam. Eram os professores que nos mostravam que o discernimento aliado ao pensamento crítico independente são as melhores ferramentas para dar resposta aos desafios práticos do dia a dia. Lembro-me, por exemplo, da professora de português, que nos lia poesia até estarmos todos sentados. Foi também marcante para mim o facto de na Escola Secundária Tomás Cabreira ter as aulas de artes em verdadeiras oficinas, com cavaletes, forno de cerâmica, rodas. Nessas aulas, de serigrafia, fotografia, quebrava-se o paradigma mesa, cadeira, livro, não estávamos sentados a ouvir, estávamos a aprender fazendo, com as mãos.
K. Eu tive também, em várias fases da minha formação, professores com uma mentalidade muito aberta, que impulsionavam a minha criatividade, a minha sensibilidade. E professores atentos às minhas preocupações, o que foi muito importante. Na minha passagem pela Holanda, como estudante da Design Academy Eindhoven, uma escola que é considerada uma das melhores escolas do mundo, encontrei um ensino que permitia o desenvolvimento da criatividade, com espaço para potenciar o conhecimento crítico e o pensamento livre. Havia mesmo muito espaço para experimentar coisas novas, diferentes de tudo, o que foi uma salvação para o meu processo criativo.
PNA. Milão acabou por vos juntar. Como foi?
A. Depois de três anos em Design de Equipamento na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, desiludido com um ensino que eu entendia como antiquado, fui fazer Erasmus para o Instituto Politécnico de Milão, em 1999/2000. Encontrei aí um ensino, por um lado, muito ligado à tecnologia, onde todos já usavam a Internet como ferramenta de trabalho, mas, por outro lado, também muito teórico e conceptual, longe da experimentação prática e da valorização do saber técnico que havia em Portugal. Então, esta nova realidade fez-me perceber que, afinal, esse currículo das Belas-Artes, que me parecia demasiado “clássico”, era mais completo e qualificado do que aquele que encontrei no famoso instituto italiano. Havia nele mais rigor e exigência, mas, acima de tudo, dava-nos mais competências.
PNA. Quais as diferenças no ensino, durante a escolaridade obrigatória, entre a Alemanha e Portugal?
K. A diferença entre a escola portuguesa e a alemã era tão grande, que, por vezes, me fazia sentir que eu, afinal, sabia muito pouco sobre determinadas áreas. O ensino na Alemanha era mais pragmático, estava muito focado em resolver problemas, estimular o pensamento próprio, individual, esquecendo-se duma formação mais geral e prática do mundo. Ficava muitas vezes admirada com as coisas que o Álbio sabia.
PNA. A vossa visão sobre o processo criativo uniu-vos, de certa forma?
K. Sim. Começámos a ser amigos e discutíamos muito sobre o processo criativo no Design. Queríamos que fosse um processo de procura, sistémico, de pessoas, com pessoas, para pessoas. Percebemos que este nosso caminho, o da criação, era um caminho participativo e social. Mais tarde, começámos a namorar e, mesmo ainda quando vivíamos em sítios diferentes, encontrávamo-nos sempre para desenvolver projetos e construir o nosso “método”.
PNA. Agora, na vida profissional, essa visão comum mantém-se?
A. Sim, porque continuamos críticos e não caímos na tentação do fácil e das fórmulas pré-fabricadas. Não nos interessa o protagonismo nem a tendência, nem o design “espetáculo”, mas as idiossincrasias do quotidiano. E é precisamente neste caminho, à procura de referências, que não são as óbvias, que entra a nossa “alma de etnógrafos”.
K. Nós os dois estamos sempre à procura de coisas novas, do nosso caminho. E esse processo de procura sem medo é fundamental para o nosso processo criativo. É preciso ouvir, observar muito, ter referências culturais. O objeto em si nunca é o foco único na nossa criação. Porque, para conceber objetos acessíveis (em todas as suas dimensões), é preciso pensar em tudo o que os envolve, as pessoas, as matérias-primas. Trata-se de uma conceção sistémica do mundo. É aqui que entra uma parte mais estratégica e conceptual do nosso trabalho. A criação estética e manual de um artefacto permite-nos perceber todo o sistema à sua volta, de forma abrangente, como, por exemplo, a dinâmica do setor e da educação. É um caminho difícil, mais lento, com muitas questões e muitas procuras.
PNA. As vivências fora da escola também se refletem no vosso trabalho?
A. A par da educação formal das instituições, foi muito importante a educação que tive em casa. Mas não falo de uma educação académica, até porque eu fui a primeira pessoa da família a estudar para além da 4.ª classe. Ter crescido num meio urbano, mas em permanente contacto com o meio rural, onde via o meu avô, que não sabia ler nem escrever, mas sabia podar e fazer queijo, desmanchar um porco, enxertar, fez-me perceber que ali, no campo, havia um mundo de conhecimento, de relação com a natureza, com a paisagem, um mundo de pessoas autónomas. Tento ter esse mundo sempre presente no meu trabalho.
PNA. Há um tempo e um espaço próprios para os vossos objetos?
K. As nossas peças devolvem às pessoas um contacto mais “natural” com os objetos utilitários, que lhes é familiar e, por isso, tão afetivo. Por exemplo, na Alemanha, a guerra destruiu muitos desses objetos. E, logo a seguir, veio a industrialização desenfreada. Não houve uma transição de cultura material consequente. Muitas pessoas vêm até ao nosso estúdio e ficam deslumbradas com os materiais e formas do nosso arquivo, porque aqui encontram-se ofícios que há muito desapareceram noutros lugares.
A. Precisamos de ter coragem e assumir que o rural é um espaço muito presente em Portugal. E esta ruralidade é certamente uma das maiores riquezas que nós temos. Pois, acima de tudo, mostra-nos uma relação de não-alienação com o mundo. É, por isso, muito importante passar esta mensagem para a educação. Nós já iniciámos, inclusive, estágios nesse sentido, com a Universidade Nova de Lisboa, no curso de Antropologia, e colaboramos com a Escola Artística António Arroio, em Lisboa. A valorização do design português, que tem uma história própria, é fundamental na formação dos profissionais. E essa história, se não é contada, de pessoas como Bordalo Pinheiro, Joaquim Vasconcelos ou Victor Palla, e das singularidades de indústrias como a têxtil, da cerâmica, a do vidro, é uma perda muito grande desta herança portuguesa, tão rica, tão particular. Não podemos ficar reféns dos heróis estrangeiros dos anos 60 e 70. Temos de criar referências no sistema de ensino do design da nossa própria história. Só assim os futuros criativos podem ter referências para dar continuidade a uma cultura material própria.
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