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ENTREVISTA.

Entrevista ao Diretor Paulo Gomes

“A visão que eu tenho da escola de hoje é uma visão de comunidade. Não faz qualquer sentido a comunidade não estar cá dentro. E estar cá dentro inclui participar nas decisões, nas festas, nas aulas, nas oficinas de família, ou seja, inclui fazer parte de todo o processo e não só do fim do processo, no papel de espectador. Este foi o ponto de partida do nosso Projeto Cultural de Escola.”

Paulo Gomes chegou em 1998 ao Agrupamento de Escolas a Sudoeste de Odivelas (AESO), de que é Diretor, há pouco mais de dois anos, trazendo para o cargo a experiência e o conhecimento como Presidente do Conselho Geral. Recorda uma discussão animada que organizou no Agrupamento, entre o ex-Presidente da República, Mário Soares, e D. Duarte de Bragança. Fez da adesão ao Plano Nacional das Artes uma revolução, herança genética que recebeu do seu nascimento em Grândola, em 1965, e da infância e juventude passadas na zona mais interior de Santiago do Cacém. Cresceu entre a planície e o mar, num Portugal isolado e ruralizado, a par de um país que preparava secretamente o sonho da liberdade à sombra de azinheiras. A sua história fê-lo professor de História, com trabalhos de investigação realizados nas áreas social e económica. É ainda membro da direção da Associação de Professores de História.

PNA O que caracteriza o AESO?

PG. Desde 1998, mudou muito a região de Odivelas e, consequentemente, a Escola também. Era uma Escola isolada, rural, cheia de cabras e ovelhas, e onde havia apenas um encarregado de educação licenciado. Hoje, com cerca de 1600 alunos, é o exemplo do que é uma verdadeira escola pública, com alunos provenientes de situações financeiras confortáveis e muito confortáveis e de situações financeiras frágeis, que encontram, muitas vezes, na Escola o seu único apoio. Temos também uma enorme riqueza multicultural no Agrupamento, fruto da vinda de alunos oriundos de muitos países estrangeiros.

PNA Como é a escola pública em Portugal?

PG. Nós temos uma boa escola pública. Eu sou um defensor acérrimo da qualidade da escola pública. Quem forma os nossos engenheiros, médicos, enfermeiros, técnicos, etc.? Há inúmeros estudos, nacionais e internacionais, que comprovam a qualidade da escola pública portuguesa.

PNA O que o motivou a candidatar-se ao cargo de Diretor?

PG. Estou aqui porque quero e porque gosto. Só faz sentido estar aqui se for para mudar alguma coisa, sempre com uma missão de dever para com a escola pública.

PNA Apesar de ser Diretor do Agrupamento há relativamente pouco tempo, o que sente como mais fácil neste cargo?

PG. Começo por dizer que tenho uma equipa fantástica, que me ajuda imenso e da qual me orgulho muito. Juntos tentamos ser em tudo o que fazemos uma Escola de perfil humanista. O que gostamos mais de fazer acaba por ser sempre a parte mais fácil. Eu, que não tenho um perfil burocrático ou administrativo acentuado, gosto muito da área pedagógica.

PNA E o mais difícil?

PG. Não é fácil implementar a novidade em momentos de reivindicação.

PNA Sabemos que se orgulha muito da reestruturação da Associação de Pais, conseguida ao longo dos últimos anos. Como é que isto se faz?

PG. Envolvendo e trazendo para a Escola os encarregados de educação, tornando-os sempre parte ativa da solução. Só desta forma é possível o civismo parental na sua plenitude. Foi algo que se foi construindo ao longo dos anos, ainda com a antiga Diretora, este ambiente de interajuda, a vários níveis, entre a Escola e os Encarregados de Educação. A verdade é que o associativismo parental foi algo que sempre nos disse muito.

PNA O que vê quando olha para a escola?

PG. A visão que eu tenho da escola de hoje é uma visão de comunidade. Não faz qualquer sentido a comunidade não estar cá dentro. E estar cá dentro inclui participar nas decisões, nas festas, nas aulas, nas oficinas de família, ou seja, inclui fazer parte de todo o processo e não só do fim do processo, no papel de espectador. Este foi o ponto de partida do nosso Projeto Cultural de Escola (PCE).

PNA De que forma se incluem também os alunos nesse processo?

PG. Vou dar o exemplo do uso excessivo de equipamentos digitais, que está a comprometer as construções frásicas do português europeu, a escrita, a leitura, o pensamento crítico, a autonomia e que pode até alterar a forma de mastigar. Em vez da aplicação imediata de regras decididas apenas por alguns, propus que se refletisse, num processo democrático, sobre o assunto, com tempo, numa escuta ativa, ao longo de 6 meses, de todos os alunos.

PNA Decide, então, aderir ao PNA.

PG. Gosto sempre de me envolver em tudo o que traga sucessos aos alunos. Um dia, um professor da Escola, o Diogo, falou-me no PNA. O entusiasmo do Diogo foi de tal forma contagiante, que se alastrou por mim e pela minha equipa. Quando aderimos ao PNA, pensámos logo em plasmar o nosso sentimento de orgulho na comunidade, num sentido mais restrito e mais alargado, no nosso PCE. Queríamos um PCE totalmente orgânico, com o objetivo de criar uma cultura de Escola. A Escola, uma Comunidade de Cultura, título do nosso PCE, é o tronco que sustenta o nosso novo Projeto Educativo – Educar e Ensinar para Humanizar.

PNA Quer isso dizer que escolher o Diogo para Coordenador do PCE foi uma escolha óbvia?

PG. O Diogo chegou à Escola como professor contratado. Uma professora de música veio falar-me dele e das suas “ideias engraçadas”. O que era para ser uma conversa de meia hora, triplicou. O Diogo é um excelente conversador. Além disto, a sua visão de cultura não é a da simples enumeração ou da mera citação, o Diogo sustenta, argumenta, reflete, sugere, faz. Um Coordenador PCE tem também de ser alguém que saiba ir ao encontro dos demais, um diplomata, portador de um verdadeiro sentido de missão.

PNA Qual é o papel de um Diretor na construção de um PCE?

PG. Um líder deve rodear-se das pessoas que tenham um perfil adequado para aquilo que são convocadas a fazer e não deve ser demasiado intrusivo. Um líder deve ser um facilitador. Acompanhei sempre de perto todo o processo, até porque participei em grande parte das reuniões, no entanto, é necessário confiar no trabalho, no conhecimento, na experiência, nas ideias dos outros. E eu confiava plenamente no Diogo.

PNA Ou seja, toda a comunidade foi ouvida para a construção do PCE?

PG. Todos os que quiseram foram ouvidos e envolvidos. Para facilitar o processo, fizemos reuniões gerais ou reuniões mais específicas, dirigidas a públicos-alvo distintos. Refletimos e debatemos muito em reuniões do Conselho Pedagógico, do Conselho Geral, das Assembleias de Pais, das Assembleias de Alunos, etc. É claro que há sempre resistência, ela é parte integrante da mudança. Mas a resistência não nos pode fazer desistir de uma mudança que trará transformações positivas nos alunos. É muito importante sabermos ouvir as pessoas, termos tempo para elas, valorizá-las.

PNA Ouvir todos é cuidar de todos?

PG. Sem dúvida. Ouvir é cuidar de todos, é zelarmos pelo bem-estar uns dos outros. O Agrupamento tem de valorizar as diferentes áreas de interesse da nossa comunidade, ligadas à cerâmica, ao teatro, ao folclore, ao relaxamento, etc. Todas estas atividades são planificadas com e para a comunidade escolar. É preciso agarrarmo-nos e agarrarmos as nossas pessoas. Um PCE potencia toda esta dinâmica artística e cultural, sempre numa lógica de co-construção.

PNA Quais os vossos principais objetivos do PCE?

PG. Queremos envolver as famílias cada vez mais no processo de ensino-aprendizagem; queremos diminuir a indisciplina; queremos aproximar mais os alunos da escola; queremos preparar os alunos para participarem ativamente na construção e defesa de uma sociedade democrática; entre outros.

PNA Um PCE potencia o trabalho colaborativo?

PG. Claramente. O professor isolado já não vai a lado nenhum. Os professores têm conhecimentos que vão para além das suas disciplinas, têm competências em áreas muito diversas, por isso cada um tem sempre algo a acrescentar aos outros.

PNA Como é que se promove esse trabalho colaborativo?

PG. Experimentando-o, por exemplo, através de articulação entre disciplinas, quer de forma horizontal quer vertical, partindo das Aprendizagens Essenciais, com o objetivo de desenvolver as competências do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória. Através das nossas Aulas Abertas, uma das medidas do nosso PCE, que são aulas onde está mais do que um professor ou um professor e um elemento da comunidade.

PNA Que outras medidas têm no vosso PCE?

PG. Estamos num processo de criação participativa com a Banda Sinfónica da PSP. Este processo é um processo único e foi uma ideia do Diogo. Partindo das Aprendizagens Essenciais de diferentes disciplinas, desde a Educação Pré-Escolar ao 9.º ano, ao longo do primeiro semestre, será feita uma composição musical acompanhada de uma narrativa. Nesta peça, que nunca desvia o olhar do que nos caracteriza, cabe tudo: sustentabilidade, inclusão, migração, liberdade, democracia. Mais tarde, esta composição será apresentada, com a ajuda dos nossos parceiros, ao público, pela Banda Sinfónica da PSP.

PNA É uma Escola unida a partir da música.

PG. Sim. E ainda temos as tertúlias musicais, onde são ouvidos vários géneros de música, para que os miúdos possam conhecer outros para além dos que normalmente conhecem. Se não se conhece ou percebe, não se gosta. É preciso habituação.

PNA É uma espécie de palato cultural.

PG. Sem dúvida.

PNA É importante que os alunos também aprendam fora da Escola?

PG. Há aprendizagens que se tornam mais significativas quando adquiridas fora da escola. Há competências que só são desenvolvidas também fora da escola. Todavia, tirar os alunos da escola é cada vez mais difícil devido a questões financeiras e nós só saímos se ninguém ficar para trás. Por isso, quando não conseguimos sair, sempre que é possível, trazemos o território aqui para dentro – artesãos, exposições, bandas e orquestras, etc.

PNA O que falta nas escolas?

PG. É preciso mais investimentos nas escolas por parte do Ministério da Educação. Há problemas de falta de recursos físicos e humanos, espaço, tempo, sinal de internet, etc., porque o que concluímos é que o investimento traz resultados, não só académicos, mais positivos, sendo sempre muito importante nunca esquecer que estamos a gerir dinheiro público. É preciso também cuidar dos professores, humanizando-os, quando se tomam decisões ministeriais.

PNA No próximo ano, comemoram-se os 50 anos do 25 de abril. Como foi viver esse dia, sendo uma criança?

PG. Tendo nascido e sido criado no Baixo Alentejo, uma região extremamente politizada, com um pai e um avô que pertenciam à Comissão Eleitoral de Humberto Delgado, é impossível não ter memórias do 25 de abril de 74. Quando me levantei nessa manhã, a minha mãe disse-me que não havia escola e ordenou-me que não saísse de casa. O que fiz? Pulei o muro e fui bater à porta de casa dos meus amigos, mas as mães deles também não os deixavam sair.

PNA Ou seja, voltou para casa?

PG. Não. Fui para casa da minha avó, onde trabalhava uma senhora, que estava a chorar junto da telefonia, “Ai, o meu Zé, o meu Zé está metido nisto...”. Nunca mais me esqueci deste momento. Mais tarde, já em minha casa, quando o meu pai chegou, num misto de euforia e alegria, gritou “Maria Helena, está quase! O Marcelo já se rendeu. Falta o Américo Tomás.”. Foram tão fortes estas frases, que eu percebi que algo único tinha acontecido.

PNA Como foram os dias que se seguiram?

PG. Alguns dias depois, estava a fazer um grande cartaz com o meu pai numa manifestação do 1.º de maio. A minha terra tinha muita gente do Partido Comunista, o Álvaro Cunhal viveu a duas casas da minha avó. O jornal Avante, o jornal O Camponês eram ali impressos em tipografias clandestinas. O meu pai, não sendo comunista, era da oposição, por isso, levou-me logo à manifestação de maio. Andei com ele nas ruas, assisti ao vivo à revolução, vi a cara das pessoas, o caos, a liberdade.

PNA Como vão comemorar o cinquentenário no Agrupamento?

PG. Vai ser amplamente discutido em todas as Escolas do Agrupamento, incluindo as da Educação Pré-escolar. Estamos em articulação com o município para que se possa pensar sobre o significado do 25 de abril, principalmente por vivermos num tempo em que há tantas forças contraditórias à liberdade e à democracia.
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